Começou no futebol como atleta, guarda-redes no Boavista 3 anos e mais tarde a central, passou por exemplo pelo Leixões e chegou aos Juniores na Academia José Neto, onde agora treina e com algum sucesso. À conta de uma lesão grave no pé direito Tânia teve, quase forçosamente, de desistir de seguir no futebol como jogadora. Virou-se então para uma carreira exclusivamente de “mister”, começando ao lado do seu pai. Foi campeã na sua série no ano passado e este ano continua a treinar na Academia, acumulando funções no futebol como directora dos Iniciados do Sport Progresso, Porto. Tânia tem 19 anos e quem sabe uma boa carreira pela frente. . .
Entrevista
Tiago Teixeira - Nos tempos que correm ainda não é muito comum uma rapariga gostar de futebol, muito menos ser treinadora e menos ainda tendo já algum sucesso. Como surgiu essa paixão pelo futebol, o que te seduziu?
Tânia Neto - A paixão pelo futebol surgiu quando tinha 8 anos, fui ver um jogo do meu pai (é treinador de futebol) e achei aquele jogo fantástico. E pedi ao meu pai para treinar em algum lado, ele levou-me e muito sinceramente não valia nada. Mas com o tempo fui melhorando, fui para a academia do Sporting e ai foi o “ano de luz”. Nesse ano dediquei-me muito ao futebol e ate porque até aos iniciados joguei com rapazes e isso tornou-me mais forte, agressiva e sem medos e isso foi óptimo. Evolui muito e tornei-me uma central com qualidade!
T.T. - Já foste jogadora e na tua formação passaste por alguns clubes bem importantes aqui do norte, mas por infelicidade tiveste uma lesão grave, foi por aí que te viraste para o treinamento? Gostavas de seguir o caminho de treinadora?
T.N. - Não, eu já sou treinadora adjunta desde os 15 anos com o meu pai. Essa paixão por treinar já vem de muito tempo. Sempre me chamou bastante á atenção todo o trabalho do meu pai. Porque não é qualquer um que sabe ler um jogo de futebol, que saiba que pode fazer um exercício em certo tempo, que perceba as cabeças de um jogador e esse é um dos pontos mais importantes no mundo do futebol. Há muita coisa em questão, porque treinadores de bancada, infelizmente, em Portugal temos muitos.
T.T. - O que imagino que seja mais dificil quando se começa carreira como tu é a metodologia de treino, os processos de treino. Como foi para ti?
T.N. - Sim é, mas tive um grande professor. Ao longo do tempo com o meu pai, nos treinos, fui aprendendo os aspectos mais importantes. Os treinos tem de ser por fases e depende muitas coisas e no inicio era difícil, porque eu precisa de saber o porque daquele exercício e porque é que fazemos no inicio do treino e não no fim, há muita coisa em jogo. Actualmente, os treinadores ou professores, interessam-se mais pelas distâncias que um meco tem do outro. Actualmente há muita asneira no mundo do futebol.
T.T. - Um dos segredos, se não o maior, para um alto desempenho dos atletas é o seu estado anímico, aqui o mister tem um papel preponderante. É fácil a comunicação e motivar os jogadores?
T.N. - Não é fácil no inicio, porque se for uma equipa nova em que estejas pela primeira vez, vais ter de perceber todas aquelas cabeças. E saber lidar com elas e varia muito das idades. Eu achei mais difícil quando treinei uns iniciados porque estão na fase da adolescência, é preciso manteres uma certa distância e rigor com eles. E eu só treino homens, que ainda é pior. Principalmente porque sou mulher!
T.T. - Conta-me como são as reacções das pessoas quando vêm uma senhora no banco a comandar 11 homens.
T.N. - No inicio eles estranham. E já ouvi muitas bocas foleiras mas também já tive muitos elogios pelo trabalho que tenho feito ao longo do tempo. E isso motiva-me imenso. mas também há ainda muito machismo no futebol, como é obvio. Já tive um treinador que não me cumprimentou porque “perdeu com uma mulher”. Já tive historias parvas por causa do machismo! E luto contra isso todos os dias!
T.T. - É certo que Portgual é dos maiores produtores de estrelas a nível mundial, mas chegamos a esse ponto sem as equipas de subs forneceram muitos jogadores aos plantéis principais, mas os que vão têm sido sempre escolhas bastante acertadas. Sendo tu treinadora de camadas jovens,achas que se devia dar mais atenção e valor a nossaformação e mais tarde integrar jogadores nas equipas seniores?
T.N. - Acho sim. Principalmente na selecção. Sou completamente contra termos brasileiros na nossa selecção, enquanto há tanto jovem a lutar no nosso pais por um lugar na selecção. E jovens com bastante talento. Temos uma formação rica em talento. Lido com juventude desde o inicio e já vi tanto talento desperdiçado. E isso é triste, muito triste.
T. T. - Técnica ou táctica? Uam equipa a partir dos jogadores ou adapta-se os jogadores ao sistema?
T.N. - Tem de haver um pouco de técnica e táctica, não da para não ter uma. Porque para se formar uma táctica perfeita é preciso ter técnica a nível futebolística e acima de tudo de inteligência. É importante um jogador saber jogar sem bola também. Nos temos de adpatar o sistema aos jogadores que temos!
T.T. - Vê-se a cada abertura do mercado Portugal a dar a grandes ligas grandes jogadores a grandes quantias. Como se vê depois os clubes a recrutar jogadores a miseros testões comparando com as saídas? Isso não contribui negaivamente para a não pregressão do nosso futebol, da nossa competividade e afirmação forte da liga a nível internacional?
T.N. - Eu não sou a favor de pagar milhões a um jogador, como é óbvio. É bom dar-mos o devido valor ao talento do jogador mas sem exageros. Agora a maior parte dos jogadores portugueses vão para clubes de fora e nos recebemos cada vez mais argentinos e brasileiros. Não digo que sejam maus jogadores mas acho que o futebol português não evolui assim.
T.T. - Paulo Bento na selecção, qual a tua posição?
T.N. - Paulo bento é um treinador rigoroso, disciplinado e acho que era um pouco disso que faltava na selecção. E acima de tudo, ele dá muito valor aos jogadores nacionais! E espero que corra tudo bem com ele.
T.T. - Futebol é cultura?
T.N. - É! É uma maneira, principalmente nos jovens, de não irem para maus caminhos. Todo o tipo de desporto é uma cultura actualmente. Ate porque o futebol tem dado brilho aos países.
T.T. - Até onde gostarias de chegar Tânia?
T.N. - Como é óbvio, adorava treinar uma equipa de seniores, em Portugal! Não digo já que gostava de chegar a um “grande” mas ao menos treinar uns seniores e tentar mudar o machismo que há no futebol!
T.T. - Ultimas palavras. . .
T.N. - Espero que haja mais valor ao futebol feminino, porque há muito talento.
E agradecer a entrevista!
Resta-me agradecer a disponibilidade e desejar-te felicidades tanto a nível profissional como pessoal.
TiagoTeixeira'
(Tânia Neto)